terça-feira, 11 de março de 2008
terça-feira, 4 de março de 2008
José
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, Você?
Você que é sem nome,
que zomba dos outros,
Você que faz versos,
que ama, proptesta?
e agora, José?
Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?
E agora, José?
sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio, - e agora?
Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?
Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse,
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você consasse,
se você morresse....
Mas você não morre,
você é duro, José!
Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja do galope,
você marcha, José!
José, para onde?
Carlos Drummond de Andrade
segunda-feira, 3 de março de 2008
sábado, 1 de março de 2008
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008
sábado, 23 de fevereiro de 2008
Dois falsários ensaiam

- Andei precisando ficar sozinho.
- O que aconteceu?
- Deveria ter acontecido alguma coisa?
- Como eu vou saber? Você mudou! Não é mais o mesmo!
- Não é possível que as pessoas continuem esperando que sejamos sempre os mesmos. Não há como ser sempre o mesmo. Você pensa que não mudou também?
- Sim! Não! Não sei se compreendi muito bem o que quer dizer? Não gosta mais de mim?
- Olha, sabe quando o fogo apaga porque não há ar suficiente?
- ...?
- É isso! O ar se extinguiu! E com ele a chama. Fica assim.
- O que faz você pensar que pode me jogar isso na cara assim de modo tão egoísta? Você não tem esse direito!
- Não, veja, não se trata de direito ou não! A questão aqui não é de posse, mas exatamente da total falta dela. Trata-se de desapego.
- Você está me ofendendo!
- Pois não deveria se sentir ofendida! Acontece o tempo inteiro no mundo. Aconteceu comigo, já deve ter acontecido com você e com pessoas que te amaram um dia. As pessoas se cansam umas das outras e fim. Algumas logo deixam transparecer. Outras escondem seus sentimentos esperando que algo aconteça, mas nada acontece, então desistem também. É do seu jeito. Resistem apenas um pouco mais. Há outras que preferem afirmar seus sentimentos de uma maneira abreviada. Este é o caso aqui. Não caberia falar de erros e desencontros. O que havia já não há mais. Já não há mais compreende? O que se pode fazer? Fingir certamente que não!
- Você sempre foi assim tão frio, tão cheio de juízos e razões! Você só está interessado nos teus motivos e no de ninguém mais!
- ...
- O que vai fazer agora?
- O que todas as pessoas fazem. Vou continuar.
- E para onde vai?
- O que importa nessa altura?
- Vai voltar?
- Não se pode responder a isso! Como negar que não? Como afirmar que sim? A vida tem...
- Ah vida!
- ...
- Você fala das coisas como se fosse o seu juiz!
- Não, eu não sou. Eu penso como os réus pensam. Apenas estou aguardando por algo numa situação interminável. Você não faz idéia...
- Eu não compreendo você!
- Faz bem. Já tem problemas demais.
- ...
- Li em algum lugar, uma vez, que talvez seja contra a natureza humana viver por toda a vida sempre interessado em apenas uma pessoa. O que pensa disso?
- Penso que é conversa fiada! Como tudo o que diz respeito aos sentimentos das pessoas. Fala-se muito sobre! Especialistas escrevem livros! Mas o que acontece sempre escapa a todos aqueles que estão de fora. Só quem vive sabe como é!
- Talvez não devesse descartar tão de imediato a idéia...
- Vai me fazer compreender? Vai me fazer me sentir melhor?
- Possivelmente não. Mas quem sabe torne você mais tolerante a tais desencontros. Um dia me foi importante aprender o mesmo! Nunca se esgota completamente o assunto. Mas já dá indícios para recomeçar de algum lugar.
- Você me cansa com a sua arrogância...Sempre incapaz de qualquer autoreprovação! ...Esse mesmo jeito de falar de todo o sempre!...
- Não acredito.
- Quê?
- Não acredito em você...Desse jeito...Com essa cara, esse modo de falar...Não é a imagem que eu vou levar comigo, ...Nunca me interessei por esse aspecto de você, ainda que compreenda que não muda muito as coisas...
- E você vai levar alguma coisa minha? Eu te deixei algo por acaso? Você vai esquecer, por Deus, vai esquecer tudo, sim! Só faz lembrar o que te apraz...Você não é tão consciente, não, não é!
- Eu vou levar algo seu, de qualquer modo. Assim como devo ficar, em parte. Não temos escolha. Não fazemos as regras.
- Para você trata-se de um lance de dados! Mas Deus não jogará mais dados! Não com a minha vida! Não mesmo!
- Tente não ficar assim. Não quero vê-la assim.
- E como devo ficar? Vou logo ali no quarto buscar o meu batom! Quer que eu escancare a boca pra você? Quem sabe quer que eu me dispa ainda mais? Isso! Vou tirar a roupa! O que me diz? Ainda dá tempo para uma boa transa, não? Vocês rapazes são sempre tão práticos! Tão pouco...convencionais!
- Eu acho que esse papel não lhe cai bem...
- E quem se importa! Quem se importa!?
- Eu ainda me importo com você...
- Ora, vá para o diabo com as tuas preocupações! São as minhas, entendeu! As minhas que estão em jogo! Só as minhas!
- ...
- ...
- É melhor eu ir embora agora...
- ...
- Queria...
-...
- Apenas te dizer mais uma coisa...
- Fica!
- ...
- Fica aqui...! Aqui comigo...!
- Olha, um dia eu quis ficar, muito, e um dia, também, quis apenas passar, como e com todo o resto das coisas que passam. Parte minha, a que quer ficar já é desencontro. A outra parte, já é partida. Não resta mais nada. Por favor, entenda...
- Porque você voltou? Porque veio? Diga! Porque veio?
- Para ver você. Uma última vez ainda.
- ...
- ...
- Satisfeito, então?
- Não.
- O que mais quer de mim?
- Quero que seja feliz. Quero que você saiba...
- Você é um imbecil completo! Com-ple-to!
- Talvez. Como todos os demais eu faço o que posso. Há tolos no mundo por toda parte. Tome cuidado com suas certezas aparentemente tão naturais. Mas não pense que são inevitáveis, por que não são!
- Vá embora!
- Uma última coisa apenas...
- Vá embora! Vá embora! Saia!
- ...
- ...
- Li um romance faz muito tempo, falava de um lugar distante...
- ...?
- Em Shangri-lá, após um período de cinco anos, diz-se que as pessoas perdem as recordações da vida que deixaram para trás e lhes resta apenas uma certa nostalgia por um tempo impreciso e remoto. A partir disso, finalmente, estão prontas para retomar a sua caminhada...Não carregam mais o peso inútil do passado...
- ...
- Eu espero que depois de fechar essa porta, esses cinco anos passem em cinco minutos e que você possa retomar a sua vida, como eu recomecei a minha um dia...
- ...
- É possível!...
- Nem mais uma palavra...por favor...
- É o que desejo.
- Você é tão...estúpido! A vida é tão estúpida!
- Assim que eu atravessar essa porta, vou fingir que os cinco anos também passarão em cinco minutos para mim e talvez assim eu possa te ver melhor. Talvez eu me sinta melhor.
- Mas são apenas palavras! Sempre são apenas palavras! Eu tenho muito medo! Medo! Medo!
- Eu também tenho! Já não estou mais tão certo assim das coisas. Mas me deixa ir...Me deixa partir...!
- Mas eu não estou mais impedindo você...! Você já disse tudo o que precisa dizer, não tem mais o que esperar aqui de nós, de mim, dessa casa!
- E vai fazer o que então?
- Ficar aqui. E esperar.
- Espera o quê?
- Você sair por esta porta, homem! Eu não compreendo vocês homens, não mesmo!
- ...
- ...
- Pois você deveria me impedir!
- ...?
- Você deveria!
- ...?
- Seja mais dura! Me ofenda se for preciso! Me arranque os cabelos! Jogue a maldita chave dessa porta idiota pela janela!
- ...?
- Diga qualquer coisa...Contra os meus motivos, as minhas razões...!
- Eu...
- Você deve se importar...!
-...?
- Nós estamos envelhecendo, sabia?
- Mas você agora mesmo...?
- Você é todo o futuro que eu tenho! E eu sou o único futuro de nós dois!
- ...?
-...?
-...
- Não sei mais o que dizer...! Não sei mais...Não sei mais o que dizer!
- Você acha mesmo?
- Com toda certeza que sim!
- Eu gostaria de ficar em silêncio agora...
- Então não diga mais nada. Passamos tempo demais tentando decifrar enigmas por pura diversão. Esse jogo ainda vai nos desgastar um dia! O que será de nós quando enfim não sobrarem mais desafios nem coisas a serem redescobertas?
- Eu realmente não sei.
- Mas não se preocupe mais. Venha! Venha comigo! Vamos fechar essa porta! Vamos dormir...
- E esquecer tudo isso!
- Muito bem, meu querido! Muito bem!
- Eu estou exausto!
- Amanhã, assim que despertarmos bem cedo, você sabe, ambos estaremos...
- Em Shangri-lá, não é?!
- Exatamente! Agora durma, durma! Assim, muito bem, meu querido. Minha doce criança!
- Até quando vamos continuar com esse jogo?
- Durma! Durma! Durma e sonhe com Shangri-lá...
- Amo você.
- Também.
- Só mais uma coisa...?
- O que é?
- O que achou de minha performance esta noite?
- Dramática, eu diria...
- Ora, você será sempre terrível!
- Você na frente minha querida! Você sempre na frente...
Texto de Alexandre Magno da Silva, em 16.10.2002
terça-feira, 11 de dezembro de 2007
segunda-feira, 3 de dezembro de 2007
O último pôr-do-sol

(Lenine)
A onda ainda quebra na praia,
espumas se misturam com o vento.
No dia em ocê foi embora,
eu fiquei sentindo saudades do que não foi
lembrando até do que nao vivi pensando nos dois
Eu lembro a concha em seu ouvido,
trazendo o barulho do mar na areia.
No dia em ocê foi embora,
eu fiquei sozinho olhando o sol morrer
por entre as ruínas de Santa Cruz lembrando nós dois
Os edifícios abandonados,
as estradas sem ninguém,
óleo queimado, as vigas na areia,
a lua nascendo por entre os fios do teus cabelos,
por entre os dedos da minha mão passaram certezas e dúvidas
Pois no dia em que ocê foi embora,
eu fiquei sozinho no mundo, sem ter ninguém,
o ultimo homem no dia em que o sol morreu
sábado, 1 de dezembro de 2007
Para Viver Um Grande Amor

Para viver um grande amor, preciso é muita concentração e muito siso, muita seriedade e pouco riso — para viver um grande amor.
Para viver um grande amor, mister é ser um homem de uma só mulher; pois ser de muitas, poxa! é de colher... — não tem nenhum valor.
Para viver um grande amor, primeiro é preciso sagrar-se cavalheiro e ser de sua dama por inteiro — seja lá como for. Há que fazer do corpo uma morada onde clausure-se a mulher amada e postar-se de fora com uma espada — para viver um grande amor.
Para viver um grande amor, vos digo, é preciso atenção como o "velho amigo", que porque é só vos quer sempre consigo para iludir o grande amor. É preciso muitíssimo cuidado com quem quer que não esteja apaixonado, pois quem não está, está sempre preparado pra chatear o grande amor.
Para viver um amor, na realidade, há que compenetrar-se da verdade de que não existe amor sem fidelidade — para viver um grande amor. Pois quem trai seu amor por vanidade é um desconhecedor da liberdade, dessa imensa, indizível liberdade que traz um só amor.
Para viver um grande amor, il faut além de fiel, ser bem conhecedor de arte culinária e de judô — para viver um grande amor.
Para viver um grande amor perfeito, não basta ser apenas bom sujeito; é preciso também ter muito peito — peito de remador. É preciso olhar sempre a bem-amada como a sua primeira namorada e sua viúva também, amortalhada no seu finado amor.
É muito necessário ter em vista um crédito de rosas no florista — muito mais, muito mais que na modista! — para aprazer ao grande amor. Pois do que o grande amor quer saber mesmo, é de amor, é de amor, de amor a esmo; depois, um tutuzinho com torresmo conta ponto a favor...
Conta ponto saber fazer coisinhas: ovos mexidos, camarões, sopinhas, molhos, strogonoffs — comidinhas para depois do amor. E o que há de melhor que ir pra cozinha e preparar com amor uma galinha com uma rica e gostosa farofinha, para o seu grande amor?
Para viver um grande amor é muito, muito importante viver sempre junto e até ser, se possível, um só defunto — pra não morrer de dor. É preciso um cuidado permanente não só com o corpo mas também com a mente, pois qualquer "baixo" seu, a amada sente — e esfria um pouco o amor. Há que ser bem cortês sem cortesia; doce e conciliador sem covardia; saber ganhar dinheiro com poesia — para viver um grande amor.
É preciso saber tomar uísque (com o mau bebedor nunca se arrisque!) e ser impermeável ao diz-que-diz-que — que não quer nada com o amor.
Mas tudo isso não adianta nada, se nesta selva oscura e desvairada não se souber achar a bem-amada — para viver um grande amor.
Texto extraído do livro "Para Viver Um Grande Amor", José Olympio Editora - Rio de Janeiro, 1984, pág. 130.






